MOTO’N’ROLL

Motos e Rock’n’Roll são dois símbolos do inconformismo, da rebeldia e da contestação. Por isso se dão tão bem. Andam lado a lado em loucas aventuras estradeiras, nos shows “full time” em que se transformam todos os encontros motociclísticos (onde o hino oficial é sempre “Born To Be Wild”, do Steppenwolf) e na simbiose poderosa de energia que faz motores, corações, mentes, guitarras, contrabaixos e baterias pulsarem no mesmo compasso.
304000_308854439126692_1017798426_n
Manifestações de rebeldia dos jovens, umas mais calmas outras mais radicais, sempre aconteceram. Um movimento surgido no final da década de 40 nos Estados Unidos, após o término da Segunda Guerra, era do tipo radical e gerou a formação das primeiras gangues de motoqueiros, os chamados moto-clubes. Eram grupos de jovens que se reuniam para descarregar a adrenalina em andanças sem destino, arruaças, brigas, bebedeiras (verdadeiras orgias alcoólicas) e baladas movidas a muitos e variados “ingredientes”. As motos usadas por todas as gangues eram (e são até hoje) as Harley Davidson, de grande porte e cilindrada, possantes e intimidadoras, máquinas que acabaram se tornando o veículo oficial do movimento. Essas motos eram fabricadas desde 1903 e se tornaram uma legenda na indústria norte-americana durante a Segunda Guerra pelo seu bom desempenho e resistência em operações estratégicas realizadas nos terrenos difíceis das zonas de combate para onde foram enviadas. Todo jovem americano sonhava (e ainda sonha) ser dono de uma.

Essas gangues foram ficando cada vez maiores e mais agressivas em suas atitudes e provocações à sociedade. Infernizavam as cidades por onde passavam detonando tudo, as leis, as autoridades, subvertendo todas as regras e convenções, e provocando pânico nas pessoas pacatas e provincianas, que se trancavam em casa quando ouviam o ronco dos motores anunciando a chegada daquelas hordas de encrenqueiros.

Fazendo História
O grupo mais famoso e temido de todos foi formado por jovens californianos e se chama, não por acaso, “Hell’s Angels”. Essa “marca” foi inspirada no nome de um esquadrão da força aérea norte-americana – o “Hell’s Angels Bomber B-17 Group” –, que realizou 364 missões de ataque e despejou 26.346 toneladas de bombas sobre os alvos inimigos. Imagine a cabeça desses caras quando voltaram pra casa. Existe até uma história afirmando que o grupo de motoqueiros foi fundado por ex-integrantes do esquadrão, mas isso não é verdade. Talvez alguns deles estivessem entre os fundadores. Mas, não foram os mentores da idéia.

O “HAMC – Hell’s Angels Moto Club” foi fundado em março de 1948, em Fontana, na Califórnia, onde começava a ferver o caldeirão da revolução cultural. Eles foram os pioneiros e os primeiros a interagir com o mundo do rock, fazendo a segurança dos shows (uma forma de assistir de graça e ainda faturar algum) de bandas que começavam sua caminhada na estrada da fama (Greatfull Dead e Grand Funk foram duas delas). Até hoje são considerados os mais ousados, audaciosos e violentos. Há facções e grupos afiliados espalhados em quase todos os países do mundo. No Brasil, há vários moto-clubes inspirados no modelo HAMC, e um dos mais radicais e representativos é o Abutres Moto Clube, de São Paulo.

Violência e Drogas
Vários incidentes aconteceram em shows históricos – em Woodstock um jovem morreu assassinado a tiros e numa mega apresentação dos Rolling Stones realizado no mesmo ano de 1969, em Altamont, uma pessoa foi morta a facadas (cena mostrada no vídeo Gimme Shelter) – envolvendo integrantes da gangue e ficaram registrados como marca da sua intolerância e brutalidade. Muitas histórias de violência e pânico protagonizadas por eles chegaram às telas em produções patrocinadas pela indústria de Holywood.

A reputação da gangue, que sempre foi a pior possível nas áreas onde eles barbarizavam, se alastrou pelo país inteiro e ganhou espaço nos jornais internacionais com as denúncias feitas num relatório do Secretário de Segurança da Califórnia, Thomas C. Lynch, que considerou o grupo “inimigo público”. Ficou famoso esse relatório –Lynch Report -, que trouxe a público casos de estupro, vandalismo e brigas provocadas pelos motoqueiros, muitas delas, porém, ancoradas em testemunhos e evidências bastante questionáveis,

Um jornalista chamado Hunter Stockton Thompson, que também começava uma carreira polêmica e marcada por matérias revolucionárias sobre o comportamento humano, resolveu viver durante um ano e meio entre eles para confirmar, ou desmascarar, as afirmações do relatório. A idéia de Thompson para essa pauta era mostrar aos leitores até que ponto o Secretário havia se baseado na realidade, comparando trechos das denúncias com as suas experiências vividas com o grupo. Durante esses dezoito meses Thompson participou ativamente, como se fosse um deles, de todas as suas atividades “legais” e ilegais. Claro que foi inevitável o seu envolvimento com a questão do consumo de drogas e ele falou sobre isso na matéria que foi publicada em 1965 na revista Nation, de forma aberta e sem rodeios: ”Os Hell’s Angels insistem em dizer que não há viciados em drogas em seu clube, e, para todos os efeitos legais e médicos, isso é verdade. Viciados são centrados; sua necessidade física por qualquer que seja a droga em que estejam viciados os força a serem seletivos. Mas os Angels não têm foco algum. Eles devoram drogas como vítimas da fome soltas em um raro banquete. Eles usam qualquer coisa que esteja disponível e se o resultado disso forem gritos e delírio, então que seja”. Dá pra ter uma idéia da doideira da rapaziada!

Sons e Luzes
Quando as primeiras bandas de rock começaram a surgir mostrando um som pesado e radical, que também agredia os ouvidos do “establishment” com propostas de uma nova estética musical, rasgada e poluída de efeitos distorcendo as melodias, houve uma imediata identificação dos integrantes das gangues motociclísticas com o movimento. O ritmo acelerado das músicas, a voz empostada ou propositadamente esganiçada com que os roqueiros vomitavam suas letras (no início ainda tímidas e um tanto românticas, mas depois cada vez mais ácidas e corrosivas) contra o sistema, o som distorcido e agressivo das guitarras (elas, por si só, uma estridente novidade aos ouvidos das gerações anteriores) e os espetáculos cada vez mais elaborados e feéricos dos shows, em que a dança e o rebolado (obsceno e extravagante para o puritanismo da época – só pra citar alguns exemplos, os casos de Bill Haley, Elvis Presley, Little Richard e Chuck Berry) eram a mídia que faltava para a expansão do movimento como um todo.

Alguns consideram o primeiro rock da história, a música “Rocket 88”, lançada em 1951 pelo pianista/cantor Jackie Brenston junto com o guitarrista Ike Turner, futuro marido de Tina Turner. Fizeram um bom barulho, diferente, ousado e irreverente, porém “Rocket 88” não foi uma revolução.

A data oficial do “nascimento” do Rock’n’Roll fica entre os meses de abril e maio de 1954, período em que um “coroa” (já tinha 29 anos e era quase careca) gordinho e sem nenhum traço característico de um rebelde, que tinha uma banda chamada “Bill Haley and His Comets”, gravou e lançou “Rock Around the Clock”. Essa gravação é considerada o marco zero do rock por causa do enorme sucesso comercial que alcançou e pela grande excitação que provocou em toda a juventude. Mas, Haley não estava sozinho na pesquisa dessa batida forte, revoltada, dançante, suingada e carregada de energia e adrenalina. Ele foi o cara que conseguiu sair na frente de todo mundo, pondo a cara pra bater e arriscando todas as suas fichas no projeto.

Outros músicos também já faziam suas experimentações acelerando os compassos do rhythm’n’blues, misturando o sentimentalismo e a sensualidade da música negra com o ritmo agitado do country branco. O resultado foi o embrião de uma revolução estética que chegou muito além dos limites da música. Iniciou uma fase de muitas transformações no mundo.

Bill Haley e sua banda já vinham tocando há algum tempo esse novo ritmo em seus shows. Mas eles ainda tinham muita dificuldade para gravar e fazer seus discos chegarem às lojas com regularidade. No dia 12 de abril de 1954, eles entraram no estúdio com a adrenalina a mil e gravaram “Rock Around the Clock” com muita “eletricidade”. Algumas semanas depois, quando o disco chegou às lojas a música virou referência daquele novo som que estava nascendo. Isso não quer dizer que o rock não teria acontecido se Bill Halley não tivesse existido ou não tivesse insistido na sua experiência musical. Possivelmente, estouraria de qualquer jeito, porque foi um movimento universal que envolveu uma geração inteira com sede de liberdade e de uma nova forma de expressão, e um outro artista qualquer seria considerado o “pai do rock”.

Nas Telas
Os magnatas de Hollywood logo esticaram seus olhos cobiçosos para o novo filão e providenciaram rapidinho a produção de dois longas-metragens: um chamado “Rock Around the Clock” (que entre nós se chamou “No Balanço das Horas”) e outro, “The Blackboard Jungle” (“Sementes da Violência”), sobre delinqüência juvenil, que usou a música na abertura. Aquela pulsação do ritmo, a sugestão quase explícita de sexo no rebolado “pecaminoso” do vocalista e o clima de festa que tudo sugeria enlouqueciam as pessoas nos cinemas. Todo mundo dançava durante o filme imitando os gestos e a coreografia da tela, desafiando a repressão puritana que há muito tempo vinha conseguindo impor e manter sua rígida disciplina. Muitos confrontos e confusões foram registrados em quase todos os cinemas americanos e depois chegaram ao resto do mundo fazendo toda uma geração de adolescentes e jovens rebolar cada vez mais naquela dança profana e sensual.

Ao difundir de maneira maciça o novo ritmo e a nova dança, esses filmes fizeram com que o compacto “Rock Around the Clock”, um ano depois de seu lançamento, alcançasse o 1º lugar da parada Billboard, a referência oficial do mercado americano. Era o primeiro disco de rock a conseguir essa façanha. A reviravolta que essa música provocou, foi uma coisa espontânea, quase acidental, despretensiosa e bagunçada, que conquistou o mundo sem ter sido imposta. E uma proposta que é aceita pela maioria sem imposição, é autêntica e verdadeira.
Esse sucesso inesperado e a empolgação avassaladora que despertou motivaram um visionário da cidade de Memphis, na Califórnia (sempre lá), chamado Sam Phillips a montar a gravadora Sun, a pioneira da nova moda (e essa é mais uma história pra ser contada em edições futuras).

Depois de “Rock Around The Clock” artistas como Elvis Presley e Chuck Berry conseguiram gravar seus primeiros discos com mais facilidade e deram seqüência ao gigantesco processo de transformação que se instalava no mundo de maneira irreversível. Esses cabeludos que vieram na seqüência, com o passar do tempo tomaram as rédeas do novo negócio e o pioneiro Haley acabou se transformando num artista de um único sucesso. Sem participar ativamente da expansão do movimento, passou a viver de shows em excursões pelo mundo (esteve no Brasil em 59 e em 75), sempre tocando “Rock Around The Clock” e “See You Later, Alligator”, outra música sua que o público conhece, mas que nem de longe repetiu o sucesso da primeira. Viveu o resto dos seus dias como “o homem que começou tudo” e morreu em fevereiro de 1981, aos 56 anos.

Nessa época ainda não havia Steppenwolf e o hino “Born To Be Wild” ainda não tinha sido gravado. As motos interagiam com o rock na identificação das propostas iguais de uma nova forma de vida, mas ainda não tinham chegado aos palcos como aconteceu mais tarde, nem faziam parte da vida de nenhum astro que se utilizasse delas para mostrar mais uma face da sua atitude rebelde e contestatória do sistema.

Para fechar esta nossa visita ao mundo fantástico que é o Rock’n’Roll, vale citar uma frase de um dos mais famosos, e ativos, integrantes dessa geração de revolucionários da contra-cultura, Timothy Leary, que ficou conhecido como o “papa do LSD” (a dele também é história para outra matéria): “Desconfiem dos chefes, dos heróis. Desconfiem de todas as pessoas de fora que tentam impor a vocês suas estruturas. Façam o que tenham que fazer. Sejam o que vocês são. Se não sabem o que são, descubram”.

Quer atitude mais rock’n’roll do que essa?

Por Jotta Santana

Anúncios
Esse post foi publicado em Comportamento, Música, Motociclismo e marcado , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para MOTO’N’ROLL

  1. jottasantana disse:

    Republicou isso em MOTOCANDO… .

Deixe uma resposta para jottasantana Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s