Inspetor Carlos, o Eterno Vigilante

Inspetor Carlos, o Eterno Vigilante

“O Vigilante Rodoviário” foi a primeira série produzida no Brasil, criada e dirigida pelo cineasta Ary Fernandes e produzida por Alfredo Palácios, para disputar espaço com as séries importadas na recém nascida televisão. Foi ao ar no início da década de 60 e com apenas 38 capítulos teve tanto sucesso que o ator Carlos Miranda se tornou policial na vida real.

IMG_2310a

“De noite ou de dia, Firme no volante,
Vai pela rodovia, Bravo Vigilante”.

Quando os acordes da “Canção do Vigilante” invadiam a sala as famílias se reuniam para assistir as aventuras do primeiro herói brasileiro, o Inspetor Carlos, um agente da Polícia Rodoviária, que acompanhado pelo seu fiel amigo, o cachorro Lobo, percorria as estradas pilotando uma Harley-Davidson 1952 cedida por empréstimo pelo comando da Polícia Militar, ou o seu carro-patrulha Simca Chambord, perseguindo bandidos e combatendo o crime e a injustiça. O primeiro episódio foi exibido no dia 3 de janeiro de 1962, na Tupi Canal 4, às 20h05, após o telejornal Repórter Esso, patrocinado pela Nestlé do Brasil.

“Foi em 1958 que nós começamos a desenvolver essa ideia para concorrer com os programas importados. Na programação da televisão não tinha nada brasileiro, não tinha personagem com nome de Zé, João, não tinha São Paulo, nem Rio de Janeiro, nem Minas Gerais como cenário. Então, nossa proposta era mostrar alguma coisa autenticamente brasileira. Porque já tinha “Lanceiros de Bengala” e “Rin-Tin-Tin” na televisão. E nós sabíamos que estavam sendo dubladas várias séries que seriam a sequência do sucesso dessas duas. Mas, como fazer isso? Qual era a maneira de fazer alguma coisa, mostrar alguma coisa autenticamente brasileira? Então surgiu a ideia de se fazer o Vigilante Rodoviário”.

Foram 38 episódios com muita ação e aventura, onde o Inspetor Carlos enfrentou toda a espécie de transgressores. No primeiro episódio – “Diamante Gran-Mongol” – a trama é digna de um roteiro de 007: um diamante gigante, uma das maiores pedras do mundo, é roubado na Holanda e trazido ao Brasil por quadrilha internacional que se une a bandidos brasileiros. O Inspetor Carlos entra em ação, recupera a pedra e bota os bandidos na cadeia.

Em “Remédios Falsificados” ele se vê às voltas com um estranho caso de várias ocorrências de intoxicação registradas nos hospitais da cidade. Os médicos desconfiam que as vítimas estavam recebendo remédios falsificados. A polícia é imediatamente acionada. Um grupo de garotos comandados por Tuca acaba entrando sem querer o carro dos bandidos. O Inspetor Carlos é avisado e prende os falsários.

“Desenvolver esse trabalho foi muito interessante porque cada vez que íamos fazer uma filmagem tínhamos que escolher um ator em formação – Juca Chaves, Rosamaria Murtinho, Milton Gonçalves, Fúlvio Stefanini, Luis Guilherme, Ary Fontoura (que nós conseguimos resgatar lá em Curitiba onde ele estava fazendo teatro mambembe). Foi um trabalho desenvolvido com o apoio dos governos de Minas Gerais (Magalhães Pinto) e do Rio de Janeiro (Carlos Lacerda). Eles nos ajudaram muito porque a verba de produção era muito pequena e os dois governadores montaram um esquema de apoio e nós fazíamos uma divulgação cultural desses Estados incluindo as cidades históricas de Minas e os pontos turísticos do Rio de Janeiro no roteiro das histórias. Todos os capítulos tinham uma mensagem de educação e cultura. Assim mostramos todas as cidades mineiras que fazem parte da nossa história, divulgamos as obras do Aleijadinho antes da grande mídia, tudo como cenário das nossas aventuras. Do Rio de Janeiro divulgamos a sua paisagem exuberante, seus principais pontos turísticos na época – o Corcovado, o Aeroporto do Galeão – e esse trabalho acabou sendo reconhecido por muitas pessoas. O governador do Paraná, Nei Braga, gostou tanto da ideia que também nos levou para desenvolver um roteiro entre Curitiba e Vila Velha. Em São Paulo, por exemplo, fomos os primeiros a filmar o Instituto Butantã divulgando todo o seu trabalho de produção de remédios e soros para curar pessoas picadas por cobras. Então, fizemos um trabalho de divulgação cultural para o Brasil inteiro. Não era só perseguição e pancadaria, também havia a preocupação cultural e didática. Histórias humanas!”.

“A História do Lobo” é uma dessas “Histórias humanas” destacada pelo Inspetor Carlos. Ele e o garoto Tuca encontram um filhote da raça pastor alemão na beira da estrada e o levam para o quartel, mas ele tem que ficar escondido, pois era proibida a presença de animais nos alojamentos. Com a ajuda dos outros soldados, consegue criar e adestrar o animal. Ao salvar uma menina de um atropelamento Lobo vira herói e passa a ser aceito na corporação.

Foram muitas aventuras, mas um episódio especial marcou a carreira do ator Carlos Miranda – “O Sósia”, em que ele teve que viver dois papéis totalmente contraditórios. A Interpol descobre que um sósia do Inspetor Carlos é membro de uma gangue de falsificadores internacionais. Para descobrir a fonte do dinheiro falso, o Vigilante não vê melhor alternativa e assume o risco de adentrar o mundo do crime: toma a identidade do bandido e, com cautela, se faz passar pelo contraventor. Este episódio que não ficam devendo nada aos melhores filmes de espionagem.

Mas, também foram tempos difíceis. As verbas de produção eram curtas porque os patrocinadores ainda olhavam com desconfiança a novidade da televisão. E os poucos patrocinadores que se arriscavam enfrentavam marcação cerrada da concorrência.

“Quando nós estávamos já preparando a filmagem das primeiras cenas do “Diamante Gran-Mongol” aconteceu o que ninguém esperava. A Nestlé estava interessada em patrocinar, mas não tinha nada certo. O que a Toddy fez? Comprou um seriado estrangeiro e batizou como “Patrulheiros do Oeste”. Tivemos que mudar o nome da nossa série para “Vigilante Rodoviário” ao invés de “Patrulheiro Rodoviário”. Quando começamos a filmar não tínhamos nada, não tínhamos carro, a motocicleta teve que ser emprestada pela Polícia Rodoviária. Graças a Deus eles concordaram com o empréstimo e até o carro do comandante acabaram emprestando nas suas folgas e nos intervalos das suas ações. As filmagens do “Diamante Gran-Mongol” foram em Santos e na Via Anchieta. Na televisão da minha época a gente tinha que criar, se você não criasse as cenas e situações a partir de uma ideia, de um roteiro, não tinha programa. E hoje os programas chegam todos prontos, recheados de efeitos especiais e com histórias, personagens e heróis importados”.

Carlos Miranda nasceu em 29 de julho de 1933, na Mooca, em São Paulo. Depois de sua participação na série ainda atuou em alguns filmes até abandonar a carreira artística e se tornar realmente um policial rodoviário. O ator também foi Secretário de Turismo em Itanhaém em três gestões municipais. Hoje, Carlos está aposentado como tenente-coronel da Polícia Militar, mora em Águas da Prata e ocupa seu tempo fazendo palestras sobre segurança de trânsito, apoiando e participando de campanhas e ações de orientação de trânsito, prevenção de acidentes e direção defensiva, prestigiando os encontros de motociclistas e de carros antigos para os quais é convidado, participando de solenidades de aniversários das cidades, sempre se apresentando como “O Vigilante Rodoviário” vestindo uma farda igual a que usava na série. Recentemente, lançou um livro chamado “Inspetor Carlos – O Eterno Vigilante”.

“A transformação provocada por esse personagem na minha vida foi radical, de 360 graus eu diria. Eu já havia feito alguma coisa em cinema e teatro, mas de repente fui protagonizar uma série pioneira e isso mexeu muito com a minha cabeça. Foi uma coisa tão forte que até hoje eu tenho atitudes do Vigilante. Eu só não uso a sigla Vigilante Rodoviário, por que não tenho o registro. Eu uso “Inspetor Carlos, o Eterno Vigilante”. Então esse trabalho eu realmente incorporei na minha vida. Hoje eu sou o personagem! Às vezes eu confundo as personalidades do Carlos Miranda com a do Coronel Carlos Miranda, oficial da reserva da Polícia Militar. Tudo isso, toda essa experiência, fez parte do meu aprendizado da vida. Porque depois de ter sito ator no Teatro Popular do Sesi e homem de produção de cinema, hoje eu vivo o Vigilante. Só não ando todo o tempo fardado, mas as minhas reações e atitudes são do Vigilante. Foram 38 episódios exibidos na televisão. Depois eles foram reunidos em quatro filmes de longa metragem, cada um formado por quatro histórias. Foi um grande sucesso com direito a lançamento festivo no Cine Art Palácio, uma das mais importantes salas de exibição daquela época. O lançamento do primeiro filme faturou mais do que filme do Mazzaropi. Por isso cada vez que eu falo sobre esse trabalho, fico realmente muito orgulhoso de ter participado de tudo isso e de ter desenvolvido um personagem com tanta empatia com o público. Mostramos a todos que nós também temos condições de desenvolver um trabalho sério, criativo e de qualidade, sem ficar devendo nada a nenhum enlatado estrangeiro. Essa satisfação eu vou levar até o último dia da minha vida”.

O companheiro inseparável do Inspetor Carlos era o cachorro Lobo, um pastor alemão já bastante conhecido dos telespectadores porque era o “garoto propaganda” da Fábrica de Móveis de Aço Fiel.

“O cachorro era do Luis Afonso, um soldado da Força Pública, e fazia todos os comerciais da Fábrica de Móveis de Aço Fiel. Na época ele se chamava King. Quando começamos o primeiro teste com ele, senti que olhava pra mim parecendo dizer: ”Fui com a sua cara!”. Foi quando um fato começou a chamar a nossa atenção, era King daqui, King dali, e as pessoas começaram a comentar: “Pôxa, vamos fazer um filme brasileiro e botar um cachorro com o nome em inglês?”. Na mesma hora ele foi rebatizado com o nome de Lobo. E nesse dia aconteceu a coisa mais importante: quando terminou o nosso teste o cachorro ia indo embora, eu gritei “Lobo”, ele parou e virou para trás! Parece que foi programado de ele ser o meu companheiro na série. Nasceu mais uma grande amizade”.

Carlos Miranda é o único ator no mundo citado no Guinness Book pelo fato de ter assumido na vida real a personalidade do seu personagem.

“Depois que a série acabou eu me senti assim meio órfão. Durante as gravações eu tinha feito tantas amizades dentro da Polícia, e há 55 anos a Polícia era um pouco diferente da de hoje, até no uniforme que era o tradicional “cáqui”, que eu uso até hoje. Daí veio realmente a vontade de eternizar esse trabalho e eu resolvi prestar concurso para a Polícia e entrei para a Academia do Barro Branco. Sai de lá como Segundo Tenente. A Rosamaria Murtinho disse numa entrevista que admirava a minha “vocação” para esse trabalho, revelada pelo personagem que eu incorporei. Então isso é realmente emocionante para mim. Eu sempre achei que todo ator tem que passar uma mensagem com o seu trabalho, pelas ações do seu personagem. E é isso que eu acho que está difícil hoje em dia”.

Duas paixões ficaram gravadas no coração do patrulheiro durante suas aventuras pelas estradas, a Harley 1952 e o Simca Cahmbord.

“O primeiro contato com a Harley foi bem engraçado. Mas, poderia ter sido trágico. Quando chegou a motocicleta para o primeiro teste o piloto me disse: “Olha, esse aqui é o acelerador, aqui é a partida, aqui fica a embreagem, lá embaixo o pé esquerdo aciona o câmbio e o direito o freio traseiro, e isso aqui é a direção (era o guidão)”. Quer dizer, fazendo gozação comigo. Eu não liguei para o comentário dele, fiquei muito emocionado e disse pra mim mesmo: “Puxa vida, eu vou fazer o teste para ser pioneiro na América Latina”. Fiquei admirando a moto por um longo tempo e senti que realmente íamos nos dar muito bem. Era uma Harley-Davidson 1952 (estávamos em 1958) e eu nunca tinha pilotado uma moto antes. Montei, dei partida e saí andando. Todo mundo saiu correndo atrás de mim, falando: “Nossa, esse cara é louco! Imagina, ele nunca viu uma motocicleta já deu partida e saiu andando!”. Mas, foi uma paixão fulminante e daí pra frente vivemos vinte e cinco episódios recheados de aventuras. E essa minha primeira volta na motocicleta, ainda antes do teste, acabou virando uma grande comemoração porque eu consegui andar na boa, sem cair nem provocar nenhum acidente. Foi mais fácil do que eu imaginava. Dos 38 episódios, 25 foram filmados comigo pilotando a moto. Foi uma paixão que só aumentou com a convivência. A moto realmente é um veículo que nos dá uma sensação incrível de liberdade e muita rapidez nos deslocamentos. É um veículo ágil, que permite manobras em espaços reduzidos e nos dá a sensação de que as distâncias ficam mais curtas. Tudo isso foi uma descoberta que me proporcionou novas experiências. A paixão pela motocicleta foi uma característica que o personagem me passou com muita intensidade. Tanto que meu filho e meu neto hoje são meus companheiros de muitas aventuras ainda por aí em duas rodas. Quando você sobe na moto tem a sensação imediata de liberdade e de aventura. Eu participo de muitos encontros motociclísticos e sou sempre muito bem recebido pelos irmãos das duas rodas. Depois dessa convivência pilotando a Harley da Polícia Militar acabei me apaixonando definitivamente por esse veículo tão prazeroso e ao mesmo tempo tão exigente”.

E o Simca, quando entrou na história?

“Com o desenvolvimento da série começamos a viajar para atender os compromissos com o patrocínio dos governos de Minas, do Rio e do Paraná. E as estradas que tínhamos naquela época eram muito precárias e as viagens de moto eram uma verdadeira aventura. De São Paulo a Belo Horizonte, eram oito horas de viagem. Então, nós tínhamos que ter um carro. E nessa época, 1959, começava a se instalar a Simca do Brasil, em São Bernardo do Campo. Conseguimos com eles alguns veículos emprestados e com isso participamos do lançamento do Simca para o Brasil todo. Mas, era só uma colaboração controlada mesmo. No último dia de filmagem, em Jundiaí, a fábrica mandou cinco motoristas que levaram os cinco carros embora assim que terminamos a filmagem e nos deixaram a pé. Tivemos que voltar pra São Paulo de carona ou de ônibus! Como nós de cinema não tínhamos a prática do “merchandising” foi uma questão complicada. Hoje eu recuperei um Simca Chambord igual ao que eu usava nas filmagens e ele é meu companheiro nos encontros de carros antigos”.

No dia 29 de julho de 2013 o ator Carlos Miranda completa 80 anos de idade. Mantendo vivo e ainda atuante o personagem que várias gerações curtiram nas primeiras “telinhas” ainda em preto e branco e que até hoje tem grande empatia com o público alcançando bons índices de audiência cada vez que é reprisado. Provando sempre que o Inspetor Carlos é realmente o Eterno Vigilante!

Os 38 episódios da série:
Diamante Gran-Mongol
A história do Lobo
Os cinco valentes (exibido somente na 1ª,2ª e 3ª temporada)
O recruta
Bola de meia
O ventríloquo
Extorsão
Jogo decisivo
Pânico no ringue
Zuni, o potrinho
A orquídea glacial (exibido somente na 1ª,2ª e 3ª temporada)
Remédios falsificados
Os romeiros
A repórter
O fugitivo
Aventura em Ouro Preto
Chantagem
O homem do realejo
A eleição
A pedreira
O pagador (exibido somente na 1ª,2ª e 3ª temporada)
O sósia
Aventuras do Tuca
O invento
Terras de ninguém
O rapto do Juca
Aventura em Vila Velha
Pombo-correio
Ladrões de automóveis
O suspeito
O garimpo
A fórmula de gás
Café marcado
O assalto
O mágico
Mapa histórico
O mordomo
Mistério do Embu
http://www.vigilantecarlosmiranda.com.br/biografia.html

Texto: Jotta Santana (os textos em italic são de autoria de Carlos Miranda e foram gravados numa entrevista exclusiva) – Foto: Jotta Santana

Anúncios
Esse post foi publicado em Eventos. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s