Motocicleta, o medo, a coragem, a técnica e o prazer

Podemos afirmar que uma das grandes diferenças entre os automóveis e as motocicletas está na segurança

Texto: Dudu Costa Neto

O que não quer dizer que um seja mais seguro que o outro, mas sim da forma que a segurança está embarcada em cada um deles.

O automóvel tem inúmeros quesitos de seguranca passiva, aquela que independe da ação do motorista. Alguns exemplos são o air bag, o cinto de seguranca e a própria carroceria. Porque garantem segurança independente da habilidade do condutor.

Já a motocicleta tem como ponto alto a seguranca ativa, aquela que depende da ação do condutor. Afinal a capacidade de manobra da motociclieta a torna imbatível para evitar um acidente. Ela passa em espaços reduzidos, troca de direção quase instataneamente, freia e reacelera em espaço reduzido de tempo. Assim, a habilidade do condutor é fundamental quando se trata de segurança ativa.

Até mesmo o verbo usado para nominar os condutores de um e outro mostram diferença.O automóvel nós dirigimos. A motocileta, não. Nós as pilotamos!!

Para pilotar devemos nos tormar pilotos e assumir de vez que a seguranca ativa da motocicleta deve ser usada incondicionalmente. E temos que nos preparar. Pois da mesma forma que ela nos tira de um acidente iminente, ela pode nos colocar em risco, na medida que avançamos no uso dos seus grandes atributos. Dirigir no limite da moto, sem um bom treinamento, simplemente nos tira a margem de seguranca que a sua malebilidade nos dá.

A teoria dos próximos 5 segundos
A grande arte de pilotar uma motocicleta, como em todas as atividades onde mente e corpo se fundem, contempla a seguinte equação:

atenção + treino + técnica = segurança + desempenho + prazer

A teoria dos próximos 5 segundos é um exercício que consiste em prever o que pode ocorrer nesse tempo. Que não é pouco, na dependência da velocidade.

Devemos aplicar a teoria da seguinte forma:
1 . Mapeamos todo o percurso que vamos percorrer nos próximos 5 segundos;.

2 . Fazemos uma instantânea suposição de tudo que poderá acontecer nos próximos 5 segundos;

3 . Planejamos e executamos a ação em cima do que imaginamos poder acontecer nos próximos 5 segundos.

Vamos exemplificar situações diversas:
Mas, primeiro vamos mostrar o tamanho do espaço que pode ser percorrido em 5 segundos numa moto: a 120 Km/h são 166 metros; a 200 Km/h, e qualquer moto de tamanho médio em diante alcança isso, são 332 metros!

Trafegando numa rodovia existem inúmeras variáveis que podem colocar em risco nossa pilotagem. Carros, caminhões, animais, buracos e outras inúmeras variáveis. No momento em que estamos a 100 km/h e os demais veículos um pouco mais lentos sendo ultrapassados, devemos prever tudo o que poderá acontecer nos próximos 5 segundos. Caso um carro mostre uma pequena tendência em mudar de faixa, ou mesmo se der seta, o plano já deverá estar pronto. Ou seja, desacelerar, frear, mudar de direção, enfim sempre que estivermos prevendo o que pode acontecer estaremos mais seguros.

Ao pilotar em um autódromo, em um track day ou competindo, a teoria dos próximos 5 segundos deve ser aplicada da mesma forma. No momento de uma ultrapassagem, a análise dos movimentos e a conclusão da opção certa passa a ser fundamental. E então, ultrapassar em seguranca e de forma decisiva passa a ser sinônimo de desempenho na prova.

O exercício contínuo dos próximos cinco segundos faz com que se incorporem à pilotagem de forma automática todos os benefícios da segurança ativa. O treino fará com que as ações sejam tomadas mais automaticamente, com mais precisão, e a pilotagem fica cada dia mais segura, rápida e prazerosa.

Corpo e mente agindo em conjunto, coordenadas pelo treino da atenção e do planejamento

Motociclistas de longa data acabam se valendo da técnica dos próximos 5 segundos inconscientemente, fruto de muitos quilômetros de experiência. Assim quanto mais treinarmos, mais malícia e velocidade de decisão teremos.

A grande regra da técnica dos próximos 5 segundos é: sempre tomar uma decisão sobre o que está acontecendo. NUNCA devemos ficar passivos e estáticos às adversidades. Os acidentes acontencem por falta de decisão. A passividade ou congelamento de ações ante uma mudanca de cenário são nossos inimigos número um.

Medo e coragem, os grandes inimigos da pilotagem

Como o medo e a coragem, coisas antagônicas, podem ser inimigos da nossa pilotagem ???

Vamos falar de medo. Ele é o sentimento da aversão ao desconhecido. Ele só existe no momento em que não sabemos agir em uma situação de risco desconhecida. Pois bem, se a motocicleta derrapa em uma frenagem mais forte e temos medo, nossa ações são comprometidas. E na maioria das vezes o chão é a resultante dessa combinação. Ou quando um carro sai de uma esquina inesperadamente e o medo é tão grande que acabamos batendo no carro sem tentar nenhuma manobra.

A forma de vencer o medo é enfrentá-lo. Ou seja, praticar situações de medo, mas sem risco. Treinar frenagem, slalom e outras manobras. Nos cursos de track days são algumas formas de colocar o medo na lata do lixo e agir com consciência em qualquer situação. Outra forma é não se expor ao medo, evitar situacões que possam causar risco, como dimunir a velocidade, aumentando consideravelmente a margem de segurança.

Já a coragem age aumentando a exposição ao risco. Muitas vezes a ideia de sermos melhores do que somos faz com que nossas acões sejam inconsequentes, pois estão baseadas em coragem e não em técnica. Acelerar uma motocicleta é sem dúvida um meio rápido e seguro de provar adrenalina. Mas não precisamos de coragem para isso, precisamos de técnica, para assegurar que provaremos o prazer da adrenalina em pilotar uma motocicleta novamente.

A coragem pode virar medo em frações de segundos. A falta de técnica e experiência colocam o medo e a coragem na garupa de nossas motocicletas . Por isso, dando um passo de cada vez nos treinos, em pouco tempo você e sua motocicleta estarão em perfeita harmonia e a pilotagem cada vez mais perto da perfeição.

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Foto: Arquivo Pessoal

Dudu Costa Neto é piloto de motovelocidade, consultor do segmento Duas Rodas e palestrante. É chefe de equipe do Castrol Team, que disputa com destaque a  SuperBike Brasil. Dudu compete na categoria Supersport 600 pilotando uma Triumph Daytona 675 com apoio da Michelin, e na atual temporada já acrescentou o título de Campeão Paulista ao seu currículo de conquistas na pista.

 

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Uma resposta para Motocicleta, o medo, a coragem, a técnica e o prazer

  1. jottasantana disse:

    Republicou isso em MOTOCANDO… .

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